
A gente poderia dar certo,
tínhamos tudo pra dar certo,
mas a gente se conheceu no momento errado.
Pode parecer clichê eu dizer isso, mas é a mais pura verdade. Eu passei a minha adolescência inteira e parte da minha vida adulta destruindo corações, tendo o meu próprio coração sendo destruído também, bebendo em todos os bares da cidade, cantando alto no meio da avenida de madrugada, conhecendo muitas camas diferentes da sua, conhecendo todo o tipo de gente, fugindo de casa, de policia, de gente falsa.
Eu vivi tudo isso enquanto você passou a sua adolescência vivendo em um namoro mais ou menos, vendo filmes alugados e comendo pizza no sábado a noite.
Eu já sofri muito, meu coração já se partiu e se reconstruiu sozinho diversas vezes, até ficar como é hoje. E você nunca teve uma desilusão amorosa pra poder contar, até a sua primeira namorada te trocar por uma outra nova namorada.
A gente se da muito bem, quando estamos juntos parece que o sol se adianta e nasce mais cedo, o tempo passa rápido, os carinhos são fáceis, o beijo não quer acabar, e você diz que me ama, mas não acredita que eu possa te amar, porque sabe que eu me amo mais, e eu sei que no fundo você quer que eu sofra por você como todos os seus novos affairs sofrem, mas eu não sou da sua turma. Sei como faz bem para o seu ego carente todas essas meninas que eu já vi chorando por você, te esperando na porta do banheiro do bar para poder se declarar mais uma vez, e você as ignora, e vem me ver, esperando que eu faça o mesmo que elas.
Eu não as culpo, eu já fui como elas, mas agora meu bem, eu não sou mais da sua turma. Por mais que eu diga a todos meus amigos que o seu beijo foi o melhor da minha vida, e eu amo a carinha que você me olha quando eu digo que vou embora, eu não vou sofrer por você. E você não aceita isso. Mas não adianta querer me forçar a entrar no seu jogo, eu já sai fora do tabuleiro, já decorei todas as regras e esse jogo ficou sem graça.
Não adianta você dizer que me ama quando esta comigo e no outro dia sumir, porque eu não vou ligar, mesmo que sinta a sua falta, eu já senti falta de tanta gente, e essa falta passa.
Eu aceito o seu jeito, aceito você querer brincar comigo de ser meu quando estou nos seus braços, mas eu vou ter que repetir que não vou entrar no seu jogo, mas não me importo de te ver jogar. Mas não queira me obrigar a fazer parte dele.
Aquele dia que eu perdi as contas de quantas vezes que você disse que me amava, eu sabia que você queria que minhas pernas tremessem, na hora elas tremeram sim, mas passou no mesmo minuto. Eu sabia que você queria que eu disse que eu também te amo, mas por mais que eu ame, eu não queria te dizer, e não foi por orgulho, também já perdi isso no tempo, eu não disse porque não quis acordar com você nesse crime que é dizer eu te amo sem amar.
Eu sabia que no outro dia você iria sumir esperando que eu te procurasse, mas eu tenho mais coisas pra me preocupar, e eu sei o final desse game, sei que logo mais ou logo menos a gente vai se encontrar de novo e você vai vir sorrindo pra mim, e eu vou te abraçar e dar start no seu jogo todo de novo.
Eu gosto de você, gosto de te ver jogar, mas eu gosto mais de mim, meu bem.
“A recaída de amor acontece como num daqueles pesadelos que se está caindo. De repente você acorda sentado na cama: Meu Deus, eu preciso saber! Mas se eu já estava tão bem há semanas. Volte a dormir, volte a dormir. Você já tinha decidido lembra? Nada a ver com você, chato, bobo, não deu certo. Mas eu preciso saber. Não, não precisa. Pra quê? Vai te machucar. Não! Eu preciso saber. Então levanto da cama. Facebook, a desgraça em formato de parquinho virtual. Nome dele, aparece a foto azulada e ele de perfil. É tão bonito. Mas não há mais nada que eu possa ver. Nos deletamos mutuamente pra evitar justamente esse tipo de inspeção noturna. Mas isso não vai ficar assim. Ligo pra nossa amiga em comum. Ela não atende, afinal, são duas da manhã. Mando mensagem “me manda sua senha do Facebook agora ou vou ficar te ligando até amanhã cedo”. Ela manda a senha e um palavrão. Acesso. Vamos ver. Eu preciso saber. Eu preciso. Então vejo que ele não posta nada há cinco semanas. Fotos, fotos. A única foto nova é o flyer de uma festa que eu fui e ele não estava. Nada. Jogo o nome dele no Google. Aparece uma foto dele alcoolizado dando entrevista em uma festa de mídia. Como é lindo. Tento o Twitter mas ele só escreve piada de político. Tento o Facebook, Twitter e blogs de amigos. Está ficando tarde. Se eu tivesse essa mesma concentração e minuciosidade e empenho e energia para o trabalho estaria rica. Estou retesadamente motivada e atenta. Mas não consegui nenhuma informação e eu ainda preciso saber. São seis da manhã. Estou cansada. Coloco a música de quando você forçou a porta do quarto e entrou. Black Swan. Não sou boa de inglês como você, mas sei que é a história de algo que já começou fodido porque cresceu demais antes da hora, você que pegue um trem e suma daqui. Que bela música pra começar. Ok, agora estou chorando. Lembrei que eu me sentia tão viva com você me olhando bem sério e bem no fundo dos olhos e machucando meu braço. Sim, é definitivamente uma recaída e eu acabo de decidir que te amo mais que tudo no universo e que amanhã, ou hoje, porque já são sete e meia da manhã, vou resolver isso. Agora preciso dormir só um pouquinho. Volto pra cama. Coração disparado. Não tem posição na cama. O que eu faço? Não tô a fim de ler, não tô a fim de ver TV. Aquelas outras coisas que se faz pra acalmar tô com preguiça agora, minha imaginação está indo toda para traçar um plano para que eu descubra. Descubra o quê? Não sei, mas sei que algo está acontecendo, ou eu não estaria assim. Porque eu sinto quando ele está com alguém, sabe? Eu sinto. Sim! A cartomante! Ligo pra Zuleide. Você atende hoje? Mas é domingo, Tati! Atende? Só se for por telefone. Tá bom, então joga aí: ele está com alguém? Mas Tati, você quer mesmo saber isso? Quero, mulher. Eu preciso saber. Joga aí: ele está com alguma puta? Tati, eu não posso perguntar isso pras cartas. Pergunta aí: ele tá com alguma piranhuda desgraçada vagabunda vaca dos infernos? Zuleide pede desculpas e desliga. Preciso do Lexapro mas ele acabou há semanas, igual meu amor. E agora, de repente, preciso tanto dos dois novamente. Você acha que ele está com alguém? Não sei, Tati, eu ainda tô dormindo, posso te ligar mais tarde? Você acha que ele está com alguém? E se estiver, Tati, quer ir ao cinema mais tarde? Você acha que ele está com alguém? Putz, sei lá, homem sempre tá comendo alguém né? Você acha que ele está com alguém? Tati, do jeito que ele gostava de você? Claro que não! Chega, chega. Preciso me acalmar. Pra que isso? Se ele estiver com alguém agora, e daí? Terminamos não terminamos? Ele e eu não temos nada a ver, certo? Decidimos que era melhor assim, certo? Eu não tava bem com ele e nem ele comigo, certo? Porque era bom e tal. Aliás, meu Deus, como era bom. Mas não era bom pra ficar junto, certo? Então pronto. Chega. Adulta, adulta. Qual o problema se ele estiver agora, justamente agora, lambendo a virilhazinha de alguma desgraçada? Qual o problema? Ok, eu posso morrer. Eu definitivamente posso morrer. Chega, vou acabar com essa palhaçada agora mesmo. Tomo banho, me visto, pego a bolsa, entro no carro. Considerando que ele não mora em São Paulo, não sei exatamente o que eu pretendo com isso. Mas me faz bem enganar o cérebro e fazer de conta que estou indo atrás da verdade. Na verdade vou só na casa de outro, preciso fazer qualquer coisa que não seja sofrer, mas não consigo. O outro não conhece Black Swan, não ri da história da Zuleide, não me aperta o braço. Volto pra casa, destruída. Sinto tanto amor dentro de mim que posso explodir e bolhas de corações vermelhas atingiriam o Japão. Quase não consigo respirar. Chega, chega. Ligo pra ele. Ele não atende. Ligo de novo. Ele atende falando baixinho. Você está com alguém? Estou. Desligamos. Pronto, agora eu já sei. Depois de um final de semana inteiro de palpitacões, descargas de adrenalina, músicas, textos, amigos, danças, gritos, sensações, assuntos, choros, dores, vida. Agora eu já sei. O que eu nunca vou saber é porque faço tudo isso comigo só porque tenho tanto pavor do tédio. Era só isso o que eu precisava saber.”— Tati Bernardi.